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domingo, 12 de maio de 2013

CRACK: A DROGA QUE DESUMANIZA E O ESTADO QUE IGNORA


No Brasil de contrastes inomináveis, hoje grassa a desgraça do “crack” nas grandes cidades, e  a TV alardeia a debandada dos animais humanos pela Avenida Brasil no Rio de Janeiro.  Destaques também para as cracolândias da cidade de São Paulo.  As duas metrópoles estão na mira da imprensa, no entanto, a epidemia se alastra pelo interior do país, deixando de ser uma ferida corrosiva dos grandes centros urbanos.
Nas vias de trânsito intenso, os animais humanos, desumanizados, correm em bandos e são atropelados por veículos de luxo ou esmagados por caminhões de lixo. Em suas fugas desesperadas são engolidos por caixotes coletivos que transportam outros amontoados de seus congêneres.  Os olhos  esbugalhados saltam em busca do momento último, do fechamento das cortinas do espetáculo abjeto.
Num processo de higienização criam-se medidas e aprovam projetos de recolhimento compulsório para tratamento. Os resultados são pífios e controversos, veneno de uma sociedade doente.  Mobilizam pensadores, religiosos e, às vezes, alguns políticos, esses últimos,  mais preocupados com o Deputado Marco Feliciano e a repercussão de seus arroubos homofóbicos na contradição da liberdade de expressão e imprensa. 
Na onda da higienização crescem as milícias de extermínio dos “animais humanos desumanizados”, paridos por uma sociedade injusta e desigual, que concentra suas riquezas nas mãos de um punhado de capitalistas que se tornam, a cada dia, mais vorazes, em busca da multiplicação das suas riquezas, mesmo que à custa de sangue e carne de miseráveis que perambulam, agonizando,  por um mundo estranho, de condomínios fechados;   protegidos das desgraças por eles mesmos engendradas.
Policiais eliminam a tiros, nas madrugadas fétidas das áreas urbanas, cabeças de gado humano, bichos indesejados, descontrolados e dominados pelo vício de uma droga que assolou a América do Norte alguns anos antes de chegar aqui.  Seria possível ter trabalhado preventivamente, atuado na educação, em programas de saúde e campanhas de alerta????  Sim, se isso interessasse ao sistema político e econômico, se isso fosse conveniente a uma elite cega e faminta de sangue humano, sangue de humanos sem cérebro.
O câncer da droga precisa ser extirpado, o sistema público de segurança não funciona, então, o poder paralelo assume o controle. A droga se transforma em tema de debate, de estudos científicos, de discursos políticos e, sobretudo, uma arma para policiais e políticos corruptos, que se associam a traficantes, matam, assaltam, apavoram a população,  em busca de lucro e do poder;  criam empresas de desintoxicação e, num cenário de dolorosa ironia, vendem a droga aos internos.
Do outro lado do mundo, muito recentemente, assumiu o Vaticano,  “o papa dos pobres”: uma esperança? 
A roda do mundo gira giramundo, e nesse choro sentido morreu, também recentemente, o “Chorão”, um ídolo que pregava o amor à família, defendia a saúde e a paz; foi abatido pela dependência química, engolido pelo vergonhoso redemoinho do descaso público. Levou consigo sua criatividade, sua poesia e música, deixando mais pobre a juventude, carente de ídolos e heróis  equilibrados, “que não morram de overdose”.
Uma Comissão de Direitos Humanos está instalada em Goiânia.  Definem as mortes de trinta moradores de rua como uma ação organizada por milícias. A Polícia Civil insiste em afirmar que são casos isolados, que drogados acertam contas entre si.  Isso é menos ruim que assumirmos  uma gangue de extermínio, admitirmos um Estado falho, incapaz de prover segurança  e os direitos mínimos de seus cidadãos. Cidadãos?  Seria possível discutir cidadania? Ou o sistema funcionaria melhor com a construção de mais condomínios fechados e “torres de marfim”? 
Sim, queremos as ruas limpas, queremos estar seguros, garantir  a segurança física de nossas famílias e nossas propriedades. E essa ferida aberta se espalha como erva daninha, alastra-se pelas ruas, provoca desconforto e desperta nossas culpas. Será? Seríamos capazes de nos inquietar para além dos nossos medos?
Episódios isolados evidenciam uma briga, uma guerra urbana de nervos entre um motorista de transporte coletivo e um passageiro no Rio, e o ônibus despenda no viaduto, o desequilíbrio  ceifa vidas inocentes. Mortos, pânico e mais mortos.  Uma babá enraivecida  mata uma criança de seis anos para atingir a mãe que odeia. Um pai irado arrasta para a arena duas filhas menores,  e uma delas é gravemente ferida  tentando defendê-lo: uma bala de revólver. Aí eu me perco e  vomito a minha cólera. Estaríamos movidos a ódio e dor? Estaríamos perdidos, andando a esmo, sem a menor noção de amor à vida?
Não consigo entender, assimilar os julgamentos dos irracionais. Goleiro Bruno, sucesso e morte, massacre do Carandirú, prepotência e morte. Raivosos, brutos; perdemo-nos?
Dias após a posse de Nicolás Maduro, a raiva uiva nas ruas da Venezuela: a morte venceu as eleições.  Incomoda a quem?  A tragédia de Boston evidencia a raiva do mundo, as gritantes diferenças do mundo, guerras religiosas vencem Direitos Humanos e alimentam rancores ancorados numa lógica perversa, que precisa enfraquecer, dizimar energias para sugar massas agradecidas pelo pão da sobrevivência,  que garante e azeita o funcionamento da mesma máquina que suga.
O  monstro, às vezes imperceptível,  continua vivo e agora caminha com fúria sobre os mortos-vivos que já não suplicam pelo pão:  matam e morrem pelo lixo químico, pela droga que lhes mina o cérebro e rouba o direito de “ser”, de estar no mundo de forma digna. Até quando o Estado se calará diante do avanço do crack?
A droga maldita ameaça nossas famílias, ronda nossos filhos e, nem sempre silenciosa, mas sempre à espreita, afoita,  aguarda o momento de atacar. Nós, curvamo-nos, subimos o vidro do carro e amedrontados, num misto de culpa e conforto, encolhemo-nos dentro de nossa impotência ante um sistema político e econômico que nos despreza. Olhamos perplexos, da janela que possibilita um estado de “suspensão”, como se fosse possível não estar no mundo do crack, se ele nos assola como um vendaval. Até quando seremos coniventes, tolerantes e indiferentes a essa dor? 

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