No Brasil de contrastes inomináveis, hoje
grassa a desgraça do “crack” nas grandes cidades, e a TV alardeia a debandada dos animais humanos
pela Avenida Brasil no Rio de Janeiro.
Destaques também para as cracolândias da cidade de São
Paulo. As duas metrópoles estão na mira
da imprensa, no entanto, a epidemia se alastra pelo interior do país, deixando
de ser uma ferida corrosiva dos grandes centros urbanos.
Nas vias de trânsito intenso, os animais
humanos, desumanizados, correm em bandos e são atropelados por veículos de luxo
ou esmagados por caminhões de lixo. Em suas fugas desesperadas são engolidos
por caixotes coletivos que transportam outros amontoados de seus congêneres. Os olhos esbugalhados saltam em busca do momento
último, do fechamento das cortinas do espetáculo abjeto.
Num processo de higienização criam-se medidas
e aprovam projetos de recolhimento compulsório para tratamento. Os resultados
são pífios e controversos, veneno de uma sociedade doente. Mobilizam pensadores, religiosos e, às vezes,
alguns políticos, esses últimos, mais
preocupados com o Deputado Marco Feliciano e a repercussão de seus arroubos
homofóbicos na contradição da liberdade de expressão e imprensa.
Na onda da higienização crescem as milícias
de extermínio dos “animais humanos desumanizados”, paridos por uma sociedade
injusta e desigual, que concentra suas riquezas nas mãos de um punhado de
capitalistas que se tornam, a cada dia, mais vorazes, em busca da multiplicação
das suas riquezas, mesmo que à custa de sangue e carne de miseráveis que
perambulam, agonizando, por um mundo
estranho, de condomínios fechados;
protegidos das desgraças por eles mesmos engendradas.
Policiais eliminam a tiros, nas madrugadas
fétidas das áreas urbanas, cabeças de gado humano, bichos indesejados,
descontrolados e dominados pelo vício de uma droga que assolou a América do
Norte alguns anos antes de chegar aqui. Seria
possível ter trabalhado preventivamente, atuado na educação, em programas de
saúde e campanhas de alerta???? Sim, se
isso interessasse ao sistema político e econômico, se isso fosse conveniente a
uma elite cega e faminta de sangue humano, sangue de humanos sem cérebro.
O câncer da droga precisa ser extirpado, o
sistema público de segurança não funciona, então, o poder paralelo assume o
controle. A droga se transforma em tema de debate, de estudos científicos, de
discursos políticos e, sobretudo, uma arma para policiais e políticos
corruptos, que se associam a traficantes, matam, assaltam, apavoram a
população, em busca de lucro e do
poder; criam empresas de desintoxicação
e, num cenário de dolorosa ironia, vendem a droga aos internos.
Do outro lado do mundo, muito recentemente,
assumiu o Vaticano, “o papa dos pobres”:
uma esperança?
A roda do mundo gira giramundo, e nesse
choro sentido morreu, também recentemente, o “Chorão”, um ídolo que pregava o
amor à família, defendia a saúde e a paz; foi abatido pela dependência química,
engolido pelo vergonhoso redemoinho do descaso público. Levou consigo sua
criatividade, sua poesia e música, deixando mais pobre a juventude, carente de
ídolos e heróis equilibrados, “que não
morram de overdose”.
Uma Comissão de Direitos Humanos está
instalada em Goiânia. Definem as mortes
de trinta moradores de rua como uma ação organizada por milícias. A Polícia
Civil insiste em afirmar que são casos isolados, que drogados acertam contas
entre si. Isso é menos ruim que
assumirmos uma gangue de extermínio,
admitirmos um Estado falho, incapaz de prover segurança e os direitos mínimos de seus cidadãos.
Cidadãos? Seria possível discutir
cidadania? Ou o sistema funcionaria melhor com a construção de mais condomínios
fechados e “torres de marfim”?
Sim, queremos as ruas limpas, queremos estar
seguros, garantir a segurança física de
nossas famílias e nossas propriedades. E essa ferida aberta se espalha como
erva daninha, alastra-se pelas ruas, provoca desconforto e desperta nossas
culpas. Será? Seríamos capazes de nos inquietar para além dos nossos medos?
Episódios isolados evidenciam uma briga, uma
guerra urbana de nervos entre um motorista de transporte coletivo e um
passageiro no Rio, e o ônibus despenda no viaduto, o desequilíbrio ceifa vidas inocentes. Mortos, pânico e mais
mortos. Uma babá enraivecida mata uma criança de seis anos para atingir a
mãe que odeia. Um pai irado arrasta para a arena duas filhas menores, e uma delas é gravemente ferida tentando defendê-lo: uma bala de revólver. Aí
eu me perco e vomito a minha cólera. Estaríamos
movidos a ódio e dor? Estaríamos perdidos, andando a esmo, sem a menor noção de
amor à vida?
Não consigo entender, assimilar os
julgamentos dos irracionais. Goleiro Bruno, sucesso e morte, massacre do
Carandirú, prepotência e morte. Raivosos, brutos; perdemo-nos?
Dias após a posse de Nicolás Maduro, a raiva uiva nas ruas da Venezuela: a morte venceu
as eleições. Incomoda a quem? A tragédia de Boston evidencia a raiva do
mundo, as gritantes diferenças do mundo, guerras religiosas vencem Direitos Humanos
e alimentam rancores ancorados numa lógica perversa, que precisa enfraquecer,
dizimar energias para sugar massas agradecidas pelo pão da sobrevivência, que garante e azeita o funcionamento da mesma
máquina que suga.
O monstro, às vezes imperceptível, continua vivo e agora caminha com fúria sobre
os mortos-vivos que já não suplicam pelo pão: matam e morrem pelo lixo químico, pela droga
que lhes mina o cérebro e rouba o direito de “ser”, de estar no mundo de forma
digna. Até quando o Estado se calará diante do avanço do crack?
A droga maldita ameaça nossas famílias, ronda
nossos filhos e, nem sempre silenciosa, mas sempre à espreita, afoita, aguarda o momento de atacar. Nós,
curvamo-nos, subimos o vidro do carro e amedrontados, num misto de culpa e
conforto, encolhemo-nos dentro de nossa impotência ante um sistema político e
econômico que nos despreza. Olhamos perplexos, da janela que possibilita um
estado de “suspensão”, como se fosse possível não estar no mundo do crack, se
ele nos assola como um vendaval. Até quando seremos coniventes, tolerantes e
indiferentes a essa dor?

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