Powered By Blogger

domingo, 12 de maio de 2013

ENCANTOS E DESENCANTOS DA PAIXÃO: FICÇÃO E REALIDADE.


Às vezes parece facílimo definir uma sensação de frustração. Ledo engano. A vida pode se arrastar como uma  sucessão infinda de insatisfações e decisões erradas. Erradas? Quais seriam as certas?
Alimentar sonhos e esperanças é uma característica humana e óbvia. Quando esse mecanismo falha,  instalam-se as patologias: neuroses, depressão, pânico, fobias e uma interminável lista de denominações criadas pelos psicologistas da modernidade urbana.
Na verdade alimentamos nosso ciclo de vida com naturalidade e quando questionamos muito, quando queremos muito, quando avançamos muito, para além daquilo que a natureza coloca, sentimos dor; nosso organismo dispara os hormônios necessários à preservação da espécie: mecanismos de defesa?
Enfim, tudo está no seu lugar. Nossos hormônios em ebulição ditam o curso natural da reprodução, mas insistimos em criar em torno disso uma aura cheia de mistérios, especial, luminosa. E foi o processo civilizatório que fez isso.  Antes de amarmos nos apaixonamos, buscamos a satisfação das nossas necessidades básicas, o desejo é saciado ante uma criteriosa escolha.  Então amamos.  Aos pouquinhos o desejo vai  esvanecendo,  a paixão vai sucumbindo sufocada pelas urgências, pelos compromissos, pelo trânsito e os atrasos;  as palavras ditas vão ganhando tons ásperos, as portas vão se fechando por dentro e se abrindo para fora.
Expostas nossas fragilidades reduzem-se as delicadezas, tornamo-nos rudes e começamos a sofrer. É quando colocamos no outro a culpa pelo que não deu certo, inclusive pelo tempo precioso que perdemos na relação equivocada. No entanto, os desejos, as paixões e os sonhos são imperiosos e se renovam na alma,  indiferentes ao corpo que perece, à carcaça frágil que desmorona ante o tempo implacável.
Foi assistindo ao filme “O despertar de uma paixão” que me dei conta do quanto projetamos no outro as nossas expectativas, nossos anseios de felicidade plena. Se o outro não atende nossas expectativas amaldiçoamos o mundo e os sapos que não se transformam em príncipes, lamentamos o desempenho dos príncipes medíocres e questionamos, enfim, nossa capacidade de merecer o príncipe, as rosas, os encantamentos e o belo.
Difícil compreender a finitude dos sentimentos, a subjetividade, o jeito de ser de cada príncipe e de cada sapo; difícil colocar-se como gata borralheira, como princesa ou até mesmo como mortal comum quando o que se queria mesmo era eternizar a chama, o amor ardente, as palavras bonitas e os gestos delicados. Na verdade desejamos esse príncipe, o nosso príncipe, aquele que escolhemos e pelo qual sofremos ante a constatação de que ele não cabe na nossa forma, não preenche nossos requisitos, seu cavalo não é branco e ele não nos envia rosas. Choramos, lamentamos a indiferença do nosso príncipe aos nossos sonhos e projetos.
Se considerarmos os agentes externos, as intercorrências, as adversidades e convenções tudo fica ainda pior. Chorei cântaros ao assistir “O diário de uma paixão (O caderno de Noah)”. De repente nunca sei quando foi que perdi meu príncipe, se ele foi sempre um sapo ou, se em algum momento cheguei a ser sua princesa.
Quando se assiste “A casa do lago” pode-se incorporar Kate sem nenhuma reflexão sobre crenças e valores. Quando o fazemos mergulhamos num lago de emoções e amores tão doces e envolventes que fariam inveja até mesmo às borralheiras dos contos de fadas.  Seriam o tédio ou as decepções a nos provocar tantas melancolias?
Mas, a profunda solidão que abateu Allie não seria um sentimento para mulheres destemidas e exigidas. Aqui nós mulheres incorporamos Noah, a quem a vida negou a realização do grande e encantado amor; encantado porque não tornado real, não concretizado sob o jugo doloroso das regras sociais e dos valores morais.
Quantas formas de amor seriam possíveis durante uma única vida e quantos deles seriam eternos? Todos? A psicanálise de Freud encontraria nas pulsões e nas neuroses latentes uma voz ou um grito que amenizasse nossas dores ante tantas perdas? Por quanto tempo seria eterno o infinito amor de Noah e Allie na concepção de Vinícius de Morais?
A arte proporciona aos humanos alguns instantes de êxtase. Choramos diante do espetáculo; os finais felizes nos comovem, esperamos e torcemos por nossos heróis, enquanto minguamos  ou contentamo-nos com as migalhas que recebemos sem inventariarmos as migalhas que oferecemos, a sede que provocamos naqueles que somam suas vidas às nossas e vão se subtraindo ante nosso descaso, ante nossas minguadas e tristes oferendas de afeto.  Na verdade bebem do fel da nossa amargura ou  peregrinam sob nossos anseios e insatisfações sem trégua.
Quando o fotógrafo da National Geographic,  Robert (Clint Eastwood),  chega para fotografar as famosas pontes  de Madison,  do Estado de Iowa (EUA), encontra uma mulher “bem-casada” absorta por uma rotina doméstica devastadora, daquelas que requerem suportes espirituais para serem atravessadas, tão grande e asfixiante a sensação de inutilidade e  frustrações. Uma vida adequada conforme os padrões sociais do capitalismo moderno, uma situação confortável. Confortável? Haveria alguém capaz de engalfinhar-se por dentro daquela alma feminina e arrancar de lá todos os anseios, desejos e recalques?  Francesca sequer se dava conta dos vulcões adormecidos dentro de seu próprio corpo, até que Robert – o príncipe de algumas horas – os desperta e devolve-lhe os sonhos entorpecidos, goles de ilusão que amargarão como fel dentro de muito pouco tempo.
A espera desesperada pelo beijo, o desejo que faz fremir todo o corpo, o estímulo para a escolha de uma lingerie nova, o turbilhão de sensações que irrompem dentro do corpo e assaltam a alma até então em zelosa vigília; a porta não estava aberta. Por que nossos príncipes nos deixam vazias? Por que ficamos à mercê dos encantos dos fotógrafos charmosos o morrendo em conta-gotas enquanto nos lêem nossas patéticas anotações, como se elas pudessem nos restituir a vida que não nos permitiram viver?
Uma vida inteira se constrói diante de espelhos cruzados, imagens distorcidas, e ao final o espírito alquebrado, relutante  sob os escombros de um corpo aviltado, imolado pelo tempo.  Escreve-se uma “Carta para Julieta” e a arte se projeta reluzente, nos arrebata para o centro dos nossos mais desvairados sonhos projetados na peregrinação de Claire Smith por Verona na Itália, em busca do verdadeiro amor. Todos os contos de fadas, todos os caprichos da arte conspiraram para o final feliz daquela história real.  Mas, desligada a tela da TV, fechados os livros de romance, tiramos o carro dos estacionamentos dos cinemas e fazemos nossos enfrentamentos, abrimos nossos baús e, às vezes, choramos ou sorrimos diante da nossa capacidade de sublimar todos os sentimentos mal resolvidos.
E a dor maior é que tentamos, insistimos, gostaríamos que a química ainda funcionasse, que todos os beijos fossem como o primeiro, que o desejo do corpo de se achegar ao outro fosse, ainda hoje, aquele do primeiro momento de aproximação física. No entanto, tudo vai murchando como a chama de uma vela que se exaure devagar e silenciosamente, como uma rosa cujo perfume vai se tornando enjoativo à medida que as pétalas caem, uma a uma sobre o chão desorganizado do jardim fúnebre,  esquecido de cuidados.
Por que acontece assim a despeito da nossa vontade, mesmo que tenhamos jurado amor eterno? Por que não se perpetuam nossos melhores sentimentos? Por que nosso amado se afasta, ou, por que nos afastamos quando tudo o que queríamos era ficar? Por que nos emocionamos diante da tela do cinema com a leitura do Caderno de Noah e explodimo-nos furiosas, expostas ao colapso da leitura real dos nossos contratos?
O tempo. Ei-lo; tirano, ameaçador e impiedoso. Mata a libido, desorganiza os hormônios e nos torna inseguras, exageradamente sensíveis, mas não nos leva os sonhos, não nos retira as esperanças na mesma proporção. “Tempo, tempo, tempo”; tão linear e pleno na arte e implacável na pele, nas vísceras, jamais possibilitará uma revanche, um duelo em que possa vencer a harmonia e a plenitude  entre corpo e a alma.
Considerando tempos e amores e filmes, nós, mortais comuns mantemo-nos condenadas a amargar nossas frustrações, continuar a busca incessante do sossego do espírito, ignorantes  que somos da “sublimação dos amores”, das “metáforas do amor”, ”amores de transferência” e da “pulsão de morte”.  A cada vez que o sol se põe,  alegres ou tristes buscamos um príncipe, um afago, uma palavra de carinho que dispensa as teorias psicanalíticas, uma vez que nem  Freud, Lacan ou Kant,  conseguiriam mesmo transformar em príncipes nossos sapos e nenhuma fada nos arrancaria da fatalidade de borralheiras para o mundo encantado das princesas.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário